quinta-feira, 21 de maio de 2015

Feliz aniversário, Pai!

Ontem meu pai fez aniversário, escrevi uma crônica para homenageá-lo, falando abertamente sobre a forma como fomos criado, com total liberdade para seguir os nossos rumos, rumo este guiado pela responsabilidade, pautado no senso da dignidade e sobre maneira visando o nosso bem estar e dos que nos acercavam. O texto em si, trata da relação amigável que deve existir entre pais e filhos. Deixo registrado que fui influenciado pelo filme meio água com açúcar que vi ontem na TV. No mais felicito meus pais, papai e mamãe, em nossas criações, foram dois corpos em uma só cabeça. E, hoje, pouco mudou e somos gratos pela suas existências e persistência em manter a prole unida, já na quarta  geração. Suas bênçãos.



Feliz aniversário, Pai!

Hoje, 20 de maio, meu pai faz 89 anos de vida...

O dia amanheceu, aqui em Jacaraípe, Serra – ES, friorento e chuvoso, esperei o tempo dar uma firmada e fui consertar a cerca e a porteira, não tenho portão e muito menos muro na minha casa. Isto me faz sentir livre e com o sentimento de liberdade aguçado.

Liberdade, esta, herdada do meu velho pai, que a vida toda nunca me disse o que fazer. Nunca me proibia de fazer algo. Sempre usava uma frase de conselho, dizia-me: - “estuda para ser um homem de bem”. Eu tocava a minha vida de estudante com certa dificuldade, até o dia que me achei e fui estudar artes gráficas no SENAI do Maracanã. Sai desenhista, pronto para o trabalho, ingressar no cursinho de pré-vestibular e na faculdade particular, pagos com os meus salários e substanciais ajuda dos meus pais.

Cresci em uma escola de ensino médio com o lema Liberdade com Responsabilidade e, já observando os movimentos dos que reagiam a ditadura militar que lutavam por mais liberdade.

Naquela época ainda não compreendia a liberdade dada pelo meu pai, as vezes confundia com certo descaso. Contudo foi muito positiva a sua atitude, cresci, ou melhor, crescemos, eu e meus irmãos crescemos sob o mesmo teto, na alegria e na dificuldade. Passamos também pela dor. Mas todos juntos, embora com ideais diferentes, contudo seguimos com a dignidade herdada de nossos pais.

Hoje, no dia do seu aniversário, estou em “dor”; isso mesmo entre aspas; dor de estar ausente, não uma dor doída, mas sofrida.

Pelo telefone, falei com ele e desejei feliz aniversário, e como sempre ele fala da saúde da minha mãe e da minha distância, afirmando que cada um carrega a sua cruz... Como se fosse desígnios de Deus.

Vida difícil a dele, todavia carregou a cruz com dignidade, afinco profissional e honradez.

Como não estou trabalhando e nem tenho mais projetos para a minha vida profissional, faço meus trabalhos domésticos e cuido da manutenção da minha chacrinha, planto, crio minhocas e por aí vai meus dias. Quando posso curto os movimentos culturais na capital.

Meus dias estão preguiçosos pelo clima frio e chuvoso, tenho visto televisão após a soneca do almoço e hoje a tarde assisti um filme com o título em português “Pai por acaso”, que por sinal foi rodado na França, onde meu pai esteve no pós-guerra em operação da Marinha de Guerra do Brasil . Na segunda Grande Guerra Mundial, lá se vão setenta anos do dia da Vitória.

O filme trata de um menino que não conhecia seu pai. A mãe o teve sem ter uma relação de continuidade com o homem que a engravidou, parece que foi uma aventura de “um dia” em momento de fragilidade.

Relato este fato para fazer uma comparação com o propósito deste texto. A criança cresceu e chegou a idade de conhecer o pai ou informações que o levaria ao pai. A mãe, empresária muito rica, tratou de arranjar um pseudo pai para o menino. Feito a trama e apresentados, criou-se uma amizade muito forte a ponto de o menino apresentar melhorias no comportamento e nos estudos escolares. E, ainda, elevou a estima do pseudo pai, que era solteirão e sem filhos biológicos e sem trabalho definido.

Uso o enredo deste filme para salientar a importância do afeto, da amizade numa relação de pais e filhos.

Ao longo da minha existência tenho refletido sobre como é ser alguém, pai e/ou filho. Nunca entendi muito bem e pouco questionamento eu fiz. Deixei-me levar pela liberdade de expressão que foi-me  ensinada e estimulada e, também, deixei de forma delével para os meus filhos.

E com os meus cabelos já brancos, avançando na idade e vivendo momentos de feliz solidão; ausente de pai, de mãe, filhos e, até dos amigos humanos, me vejo diante de uma constatação, que me foi passado pela mensagem do filme “Pai por acaso”, que interpreto como valiosa e permanecerá em meu coração.



“Antes de ser pai, melhor ser amigo, visto que a amizade transcende ao tempo”



Não sei se sou amigo dos meus filhos, pois a minha maneira de ser, de deixar que eles tenham a rédea de suas vidas, talvez eles pensem ou me vejam com descaso, da mesma forma que eu pensava na minha adolescência. Contudo, já maduro e envelhecido, tenho certeza que tenho um amigo na figura do meu pai... Não sei explicar porque levei tanto tempo para chegar a esta conclusão.

Dos males, talvez este seja o menor, visto que ainda tenho meus pais vivos e ativos.

A eles dedico meu carinho, minha compreensão e o meu amor tardio.

Amor construído pelo tempo num coração envelhecido. Se pudesse voltar ao tempo, de certo não estaria aqui, longe... Não acompanhei o envelhecimento deles e eles me tratam como um menino um pouco mais responsável. Também envelheci e eles não perceberam. Quisera estar todo tempo juntos!

Ao meu pai, pelo dia de hoje e sempre, dedico respeito, pela forma que se mostra companheiro de minha mãe, fragilizada pela idade, mas como ele sempre diz: - cada um carrega sua cruz; dedico, ainda, amor e gratidão pela liberdade de escolha.

E digo para vocês, a minha cruz e esta: - escrever... escrever... escrever... escrever para satisfazer meus desejos e tornar a minha solidão feliz.

Dário Omanguin

20/05/2015

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