Ontem meu pai fez aniversário, escrevi uma crônica para homenageá-lo, falando abertamente sobre a forma como fomos criado, com total liberdade para seguir os nossos rumos, rumo este guiado pela responsabilidade, pautado no senso da dignidade e sobre maneira visando o nosso bem estar e dos que nos acercavam. O texto em si, trata da relação amigável que deve existir entre pais e filhos. Deixo registrado que fui influenciado pelo filme meio água com açúcar que vi ontem na TV. No mais felicito meus pais, papai e mamãe, em nossas criações, foram dois corpos em uma só cabeça. E, hoje, pouco mudou e somos gratos pela suas existências e persistência em manter a prole unida, já na quarta geração. Suas bênçãos.
Feliz
aniversário, Pai!
Hoje, 20 de maio, meu pai
faz 89 anos de vida...
O dia amanheceu, aqui em
Jacaraípe, Serra – ES, friorento e chuvoso, esperei o tempo dar uma firmada e
fui consertar a cerca e a porteira, não tenho portão e muito menos muro na minha
casa. Isto me faz sentir livre e com o sentimento de liberdade aguçado.
Liberdade, esta, herdada do
meu velho pai, que a vida toda nunca me disse o que fazer. Nunca me proibia de
fazer algo. Sempre usava uma frase de conselho, dizia-me: - “estuda para ser um
homem de bem”. Eu tocava a minha vida de estudante com certa dificuldade, até o
dia que me achei e fui estudar artes gráficas no SENAI do Maracanã. Sai
desenhista, pronto para o trabalho, ingressar no cursinho de pré-vestibular e na
faculdade particular, pagos com os meus salários e substanciais ajuda dos meus
pais.
Cresci em uma escola de
ensino médio com o lema Liberdade com Responsabilidade e, já observando os
movimentos dos que reagiam a ditadura militar que lutavam por mais liberdade.
Naquela época ainda não
compreendia a liberdade dada pelo meu pai, as vezes confundia com certo descaso.
Contudo foi muito positiva a sua atitude, cresci, ou melhor, crescemos, eu e
meus irmãos crescemos sob o mesmo teto, na alegria e na dificuldade. Passamos
também pela dor. Mas todos juntos, embora com ideais diferentes, contudo
seguimos com a dignidade herdada de nossos pais.
Hoje, no dia do seu
aniversário, estou em “dor”; isso mesmo entre aspas; dor de estar ausente, não
uma dor doída, mas sofrida.
Pelo telefone, falei com ele
e desejei feliz aniversário, e como sempre ele fala da saúde da minha mãe e da
minha distância, afirmando que cada um carrega a sua cruz... Como se fosse desígnios
de Deus.
Vida difícil a dele, todavia
carregou a cruz com dignidade, afinco profissional e honradez.
Como não estou trabalhando e
nem tenho mais projetos para a minha vida profissional, faço meus trabalhos
domésticos e cuido da manutenção da minha chacrinha, planto, crio minhocas e
por aí vai meus dias. Quando posso curto os movimentos culturais na capital.
Meus dias estão preguiçosos
pelo clima frio e chuvoso, tenho visto televisão após a soneca do almoço e hoje
a tarde assisti um filme com o título em português “Pai por acaso”, que por
sinal foi rodado na França, onde meu pai esteve no pós-guerra em operação da Marinha de Guerra do Brasil . Na segunda
Grande Guerra Mundial, lá se vão setenta anos do dia da Vitória.
O filme trata de um menino
que não conhecia seu pai. A mãe o teve sem ter uma relação de continuidade com
o homem que a engravidou, parece que foi uma aventura de “um dia” em momento de
fragilidade.
Relato este fato para fazer
uma comparação com o propósito deste texto. A criança cresceu e chegou a idade
de conhecer o pai ou informações que o levaria ao pai. A mãe, empresária muito
rica, tratou de arranjar um pseudo pai para o menino. Feito a trama e
apresentados, criou-se uma amizade muito forte a ponto de o menino apresentar
melhorias no comportamento e nos estudos escolares. E, ainda, elevou a estima
do pseudo pai, que era solteirão e sem filhos biológicos e sem trabalho
definido.
Uso o enredo deste filme
para salientar a importância do afeto, da amizade numa relação de pais e
filhos.
Ao longo da minha existência
tenho refletido sobre como é ser alguém, pai e/ou filho. Nunca entendi muito
bem e pouco questionamento eu fiz. Deixei-me levar pela liberdade de expressão
que foi-me ensinada e estimulada e,
também, deixei de forma delével para os meus filhos.
E com os meus cabelos já
brancos, avançando na idade e vivendo momentos de feliz solidão; ausente de
pai, de mãe, filhos e, até dos amigos humanos, me vejo diante de uma
constatação, que me foi passado pela mensagem do filme “Pai por acaso”, que
interpreto como valiosa e permanecerá em meu coração.
“Antes de ser pai, melhor
ser amigo, visto que a amizade transcende ao tempo”
Não sei se sou amigo dos
meus filhos, pois a minha maneira de ser, de deixar que eles tenham a rédea de
suas vidas, talvez eles pensem ou me vejam com descaso, da mesma forma que eu
pensava na minha adolescência. Contudo, já maduro e envelhecido, tenho certeza
que tenho um amigo na figura do meu pai... Não sei explicar porque levei tanto
tempo para chegar a esta conclusão.
Dos males, talvez este seja
o menor, visto que ainda tenho meus pais vivos e ativos.
A eles dedico meu carinho,
minha compreensão e o meu amor tardio.
Amor construído pelo tempo
num coração envelhecido. Se pudesse voltar ao tempo, de certo não estaria aqui,
longe... Não acompanhei o envelhecimento deles e eles me tratam como um menino
um pouco mais responsável. Também envelheci e eles não perceberam. Quisera estar
todo tempo juntos!
Ao meu pai, pelo dia de hoje
e sempre, dedico respeito, pela forma que se mostra companheiro de minha mãe,
fragilizada pela idade, mas como ele sempre diz: - cada um carrega sua cruz; dedico,
ainda, amor e gratidão pela liberdade de escolha.
E digo para vocês, a minha
cruz e esta: - escrever... escrever... escrever... escrever para satisfazer
meus desejos e tornar a minha solidão feliz.
Dário Omanguin
20/05/2015