terça-feira, 13 de setembro de 2011

MEMORIAL 11 DE SETEMBRO – UMA REPÓRTER E O MEU PENSAMENTO.

Manhã de terça feira, 11 de setembro de 2001. Caminhava pela Rua Gonçalves Ledo, entre as ruas Luiz de Camões e Constituição perto da Praça Tiradentes, centro do Rio de Janeiro.
Nesta época morávamos na Lapa, precisamente na Av. Augusto Severo esquina com a Rua Joaquim Silva. Eu tinha por hábito caminhar pelas ruas antigas do Rio, às vezes ia até a Av. Presidente Antonio Carlos, esquina com Av. Beira Mar, acompanhando minha ex-esposa que ali trabalhava, e eu pegava um rumo sem destino, mas com objetivos claros de apreciar os casarios antigos e o comércio da cidade no SAARA – maior shopping de céu aberto, dizem orgulhosos os comerciantes da Sociedade dos Amigos e Adjacências da Rua da Alfândega, inicialmente instalado nessa Rua do Rio Antigo que desce da Rua 1º de Março pelas bandas da Praça XV, precisamente em frente ao Centro Cultural dos Correios e do Instituto Cultural Banco do Brasil, até o Campo de Santana, cujo nome correto é Praça da República, local onde o Marechal Deodoro da Fonseca proclamou a República do Brasil, derrubando do trono o Imperador de Dom Pedro II, em Novembro de 1889, no dia 15, dizem...
Mas a história que quero contar é outra e vocês estão “pra lá de careca de saberem”. Entretanto, gostaria de retratá-la com a minha visão e também poder estabelecer um elo com a participação de anônimos perante o triste espetáculo presenciado pela televisão ao vivo nessa manhã fatídica.
Como citei acima, estava correndo o mercado do SAARA, a fim de encontrar, uma toca disco, esse modelo tipo “pick up”. No final da Rua Gonçalves Ledo e adjacências existem vários “brechós” de equipamentos eletrônicos, alguns verdadeiros cemitérios, mas tem muita coisa boa e com bom preço.
Parei em frente de uma loja, havia uma pequena aglomeração de pessoas assistindo uma televisão, na qual exibia imagens de um acidente aéreo, estavam reprisando o choque de um avião com um prédio. Percebi que havia uma consternação no semblante daquelas pessoas que assistiam aquela transmissão. Então, na maior ignorância, perguntei ao homem, “ Isso é um filme?” ele me respondeu simplesmente, ”não – foi um ataque terrorista”, fiquei estarrecido!
Na seqüência, surgi na tela, a repórter Zileide Silva da TV Globo, de semblante tenso, mas com uma segurança profissional impressionante, tudo desabava ao fundo e a repórter relatava o ataque do primeiro avião a uma das torres gêmeas do World Trade Center, quando o segundo avião adentra na outra torre e tudo vem abaixo... 110 andares, 415 metros de altura, um volume imenso de concreto e aço.
O terror estava tomando os Estados Unidos da América! Um império nas mãos de fanáticos! Pensei.
Fiquei junto àquela pequena multidão, falando e ouvindo. Contudo, meu pensamento estava voltado para a tragédia que se seguia, pois novos relatos informavam que outros aviões estavam destinados a se chocarem com alvos importantes, como ocorreu com  complexo predial do Pentágono,  centro de decisões militares dos USA e outro que se espatifou na Pensilvânia.
Em todo, estive junto ao grupo que se formou por uns 90 minutos, tempo esse que transformou a minha concepção sobre as atitudes e meios que facções de libertários utilizam para chamar a atenção de suas causas. Resolvi retornar para casa para assistir o Jornal Hoje da TV Globo e confirmar as notícias sobre o acontecido e saber de suas conseqüências.
Peguei o caminho de casa, já havia esquecido o meu objetivo que era apreçar algum toca disco; sai pela Praça Tiradentes, entrei na Rua da Carioca, onde algumas televisões do comércio noticiavam com alguns flashes da tragédia, por alguns instantes, parava e obtinha novas informações, nada que alterasse aquele quadro.
Durante o percurso me veio à lembrança de um passado, quando estudante de Comunicação Social, discutiam-se os preconceitos dos meios de comunicação visual com relação ao Negro, ou melhor, aos “cidadãos de cor”. Não havia “âncoras coloridas na TV”. Mas o tempo passou e na década de oitenta surgiram grandes repórteres – o Heraldo Pereira e também a Zileide Silva em São Paulo e a Dulcinéia Novaes no Paraná, esses três me chamaram muito atenção devido à qualidade e firmeza nas  apresentações das suas reportagens. Lá se foram duas décadas dessas observações, quando no ano de 2000 Zileide se torna correspondente em Nova York.
A caminho de casa confabulei com os meus botões – menina de sorte! Apesar de toda desgraça, ela estava no lugar certo e na hora certa! Esse é um paradigma que não deve ser quebrado por repórter nenhum. Juro! Adorei ver aquela mulher com cara de menina, firme, segurando a emoção, dando o seu recado, na linguagem que o povo entende e na cor do Brasil, mestiça. Confirmando com orgulho os dizeres do Professor Antropólogo Darci Ribeiro, que sempre afirmou ser o brasileiro o povo mais lindo do planeta, pela mistura das suas raças.
Hoje posso dizer com orgulho que todas as mídias televisivas contam com profissionais na cor do Brasil frente às câmeras, apresentando Jornais como âncoras ou em simples reportagens.
Cheguei em casa com uma tamanha satisfação, parecia não haver tragédias, meu coração tinha um ideal, e a ele eu havia chegado, através da Zileide, bela reportagem, excelente compromisso com a verdade.
Logo que pude, liguei a televisão, assisti o replay do noticiário e obtive novas informações. Dois mil e tantos mortos e a preocupação da existência de brasileiros nessa lista.
O mundo “novayorkino” tomado de poeira e fumaça, “os céus americanos” fechados para o trânsito aéreo enquanto escombros soterram corpos. Na real, o mundo perdeu inteligências, negras, brancas, pardas ou amarelas. Isso não interessa. Razões Sociais também se foram. Cabiam naquele momento, só orações. Meu senso crítico, me fez pensar em Deus.
Todavia, o trabalho jornalístico da TV Globo também marcou aquela data. Levei esses precisos dez anos para escrever este texto, que ressalta o meu pensamento e também me faz efetuar uma crítica ao fato de que na comemoração de uma década passada da tragédia e a inauguração do Memorial não se fez presente a minha repórter Zileide.
Esteve lá, sim. Outro correspondente cobrindo uma festa. A emoção não estava presente. A notícia veio em tom de inauguração, no palanque dois adversários, W Bush e Obama, cada um no seu discurso, não havia culpados. Contrariando a “máxima” da perícia criminal – “Onde há cadáver, há criminoso”.
A vida tem que continuar, é como no teatro – o espetáculo não pode parar. Entraremos no Outono “novayorkino” com um belo local para passear e apreciar. Eu prevejo o Verão de 2012 com muita água refrescante, fontes iluminadas, embora o fosso esconda a sujeira política dos seres humanos. Mas antes disso, no próximo inverno, o Memorial 11 de Setembro mostrará sua outra face, estará frio, como o coração de muitos que não entendem o sentido da liberdade de expressão e do livre arbítrio. A tutela americana promoverá a sua própria destruição. É esperar para ver ou viver para crer!
Nesse fato não gostaria crer e nem de ver Zileide à frente da reportagem, amaria vê-la, ontem, premiada, reportando para o mundo da língua portuguesa a emoção da inauguração do  Memorial 11 de Setembro
Os meus respeitos àqueles que estão citados às margens das cascatas que formam as gigantescas piscinas, tanto as vítimas do 11 de setembro quanto as seis vítimas de 26 de fevereiro de 1993. 

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